Sábado, 26 de Janeiro de 2008

O que é o Ser??? A discussão filosófica da questão.

O horizonte da meditação heideggeriana é o da questão do ser, mas o universo do qual é posta esta questão é o da existência. "A existência humana não é um simples fato: ela articula, no próprio ato da sua manifestação, a questão do ser. Existir, é habitar estaticamente na verdade do Ser. Pensar, é descobrir reflexivamente o caminho do Ser: não significa, originariamente, compreender algo, mas compreender que se está já situado."

Portanto a questão fundamental da filosofia não é o homem mas sim o ser, não só do homem como de todas as coisas. Uma filosofia que colocasse o homem como centro de preocupação seria antes uma antropologia. Heidegger afirma que a questão que lhe preocupa não é a existência do homem e sim a questão do ser em seu conjunto e enquanto tal. Logo, um dos objetivos básicos de sua obra Ser e Tempo é investigar o sentido do ser. Para efetuar tal tarefa, começou investigando o ser que nós próprios somos. Podemos perceber que a pergunta principal de Heidegger é: qual é o sentido do ser? Ele substitui a pergunta dos filósofos clássicos – o que é o ser? Pois, para ele, essa ficou indevida por estar clara e evidente.

O ponto de partida necessário de toda tentativa por determinar, em seu rigor, o ser do ente em geral, era o homem como ser-aí ou Dasein. Pois, de todos os entes, o homem é o único ao qual é funcionalmente exigida uma solução para o problema do existir. Assim, criando uma terminologia própria, Heidegger denomina o modo de ser do homem, nossa existência, com a palavra Dasein, cujo sentido é ser-aí, estar aí.

Heidegger recusa-se a separar o Ser do sendo, o sentido do dado: a aparente gratuidade do existente é precisamente o sinal da presença do Ser no seio do mundo, o reflexo da transcendência do sentido. Não há, com efeito, qualquer possibilidade de conhecer o sendo fora da luz do Ser.

Segundo ele o verdadeiro mundo não é o da ação ou o da contemplação; é o da presença. Ora, esta engloba o sendo no seu conjunto como o existente humano. Não se pode definir o homem em relação a ele mesmo: ele não é um sujeito isolado que, tomando-se como objeto de reflexão, operaria uma reflexão do mundo. O ser humano existe em conaturalidade com os sendos circundantes que o investem. Com efeito, não se trata mais do homem concebido primeiramente como um ser isolado e solto que tivesse de vir ao mundo para aí cumprir uma trajetória finita, mas se, ao contrário, o ser-no-mundo é a condição fundamental do homem mesmo em sua humanidade.

Ele irá chamar essa ontologia de hermenêutica, pois não ensina mais verdades, mas nos ensina como interpretar. A existência, portanto, será um meio-termo, caracterizado por um movimento perpétuo de vai-e-vem entre o real pré-dado na situação e a realidade desvelada na compreensão.

A transcendência é, segundo Heidegger, a expressão dessa dinâmica interior do ser. O que eqüivale a dizer que o modo humano de ser é interrogativo. A existência não para de repor em questão, superando-a, a realidade que a determina, sem deixar, portanto, de existir nela.

Assim, o Dasein é o único que pergunta, é o único capaz de se questionar sobre o sentido do ser. Questionar é ir na raiz, é procurar o ente naquilo que ele é e como ele é. Por isso, Heidegger privilegia o Dasein porque ele é capaz de perguntar pelo sentido do ser. A grande questão na filosofia heideggeriana é o ente como questionador ( Dasein ). É a análise do ente, de seu modo de existir capaz de questionar. O objetivo é o ser do ente, é explicar o próprio ente.

O ser é o conceito mais universal de todos, pois é o primeiro lançado em nossas cabeças, e por isso o mais evidente. Por ser o mais universal, isto é, o geral, não tem limitação, portanto é indefinível. Assim, o conceito de ser está acima, fora e transcendente ao gênero e a diferença específica.

Portanto, o conceito de ser transcende ao gênero e a espécie. Desse modo, podemos definir o conceito de ser como o mais universal, indefinível e evidente por si mesmo. O sentido de ser é um arranjo das coisas de tal sorte que elas se revelam exatamente nesse contexto. É sempre o contexto das coisas que mostra o seu significado. Nada faz sentido sozinho, o ser humano ganha o seu sentido na história. O sentido do ser está dentro da progressão temporal, nesse sentido, nós sempre progredimos e evoluímos. A clara e evidente questão do ser nos mostra a incompreensão. Compreendo o ser em parte, entretanto, existe uma obscuridade de fundo. Toda compreensão óbvia nos demonstra uma obscuridade.

Portanto, em toda compreensão também há uma incompreensão. Já conheço o sentido do ser, mas ainda não totalmente. Trazer para a luz do dia, tornar claro e visível em si mesmo é o que o fenômeno realiza. A fenomenologia é um conhecimento das coisas que se mostram em si mesmo, isto é, vem a luz, ou seja, não existe um processo de abstração, mas sim uma revelação.

O fenômeno é um processo de totalidade de tudo quanto é, mas que se mostra por si mesmo sem o recurso do processo de abstração. Porém, as coisas não se revelam individualmente, mas no contexto. O ente se faz ver assim como fumaça. O ser ( fogo) se revela como ente ( fumaça ). Onde há fogo há fumaça. Onde há ente há necessariamente ser. O primeiro significado de fenômeno é aquilo que se revela em si mesmo. O segundo significado é aquilo que se faz ver como uma aparência.

A fenomenologia, numa visão heideggeriana, é um esforço de revelar aquilo que está oculto. Fazer filosofia é um processo de retirada do "véu de maia". A estrutura da ocultação e da revelação se interligam. Cabe ao filósofo trazer à claridade aquilo que está oculto. A estrutura vem à tona, mas a claridade nunca é total sempre há uma obscuridade. Por isso a busca do sentido nunca chega ao fim, devido a isso sempre haverá filosofia.

Portanto, podemos definir fenômeno como aquilo que se torna visível a si mesmo. Manifestar-se é o não mostrar-se como é o caso da doença, nesta temos apenas os sintomas ( uma aparência traz a carga de uma realidade ), temos manifestações. Assim, a verdadeira realidade do fenômeno está oculta pelo sintoma.

A filosofia de Heidegger é circular, pois procura o sentido avançando e se desdobrando. Ele trabalha com o círculo hermenêutico e não com o sentido de causa. Nesse sentido, podemos referirmos ao pré socrático Heráclito, sua doutrina fundamenta-se no movimento de todas as coisas. Nesse sentido, o ser identifica-se com sua manifestação, e só há manifestação para o homem. Realiza-se, assim, a idéia de Protágoras: "O homem é a medida de todas as coisas".

A intuição central de Heidegger é a de que o homem é uma consciência finita, e sua presença no mundo é inexplicável, injustificável e absurda. Resulta dessa idéia que a morte é um dos temas mais constantes de sua filosofia. O caráter de ser-mortal impregna tão profundamente o homem, que o sinal de uma existência autenticamente humana será olhar sem ilusão alguma para o mergulho no nada que é a morte.

Em sua filosofia, Deus é ignorado e não há referência a um ser transcendente. A existência humana basta-se a sim mesma. Por isso, o humanismo de Heidegger é chamado de absoluto, pois está fechado em si mesmo.

Analisando a vida humana, descreve três características básicas que marcam a existência inautêntica:

1.O fato da existência: o homem é 'lançado' ao mundo, sem saber por quê. Ao despertar para a consciência da vida, já está aí, sem ter pedido.

2.O desenvolvimento da existência: o ser humano estabelece relações com o mundo ( ambiente natural e social historicamente situado). Para existir, o homem projeta sua vida e procura agir no campo de suas possibilidades. Assim, move uma busca permanente para realizar aquilo que ainda não é. Em outras palavras, existir é construir um projeto.

3.A destruição do eu: na busca de realizar seu projeto, o homem sofre a interferência de uma série de fatores adversos que o desviam de seu caminho existencial. Trata-se de um confronto entre o eu com os outros. Um confronto no qual o homem comum é, geralmente, derrotado.

O seu eu é destruído, arruinado, dissolve-se na massa humana. Em vez de tornar-se si mesmo, o homem torna-se aquilo que os outros desejam. O sentimento profundo que faz o homem despertar da existência inautêntica é a angústia, pois ela revela a nossa impessoalidade no cotidiano, o abandono do nosso próprio eu adiante da opressão do mundo como um todo.

A partir desse estado de angústia, abre-se para o homem, segundo Heidegger, uma alternativa: fugir de novo para o esquecimento de sua dimensão profunda, isto é, o ser, e retornar ao cotidiano; ou superar a própria angústia, manifestando seu poder de transcendência sobre o mundo e sobre si mesmo.

Aqui surge um dos temas chaves de Heidegger: o homem pode transcender, o que significa dizer que o homem está capacitado a atribuir um sentido ao ser. Na "noite clara" da angústia, dirá Heidegger, nossa vida, subjugada pela ditadura do "impessoal", alienada na seqüência dos afazeres correntes, radicalmente distraída de seu sentido fundamental, recobra sua autenticidade perdida. A função da angústia consiste em reconduzir o homem ao encontro consigo mesmo.

Ousadamente, Heidegger conceituará como condição a priori de possibilidade, isto é, como o estado de ser, o tempo, ou melhor dizendo, a temporalidade. Surpreendemos assim, nascidos no cerne do existir humano, o futuro, o passado e o presente, os três momentos fundamentais da temporalidade.

O tempo é portanto o próprio homem conduzido à plena elucidação de seu mais íntimo ser. À luz da analítica heideggeriana, o tempo deixa de ser algo exterior que nos sobreviria de fora para impor-nos sua lei, mutilar-nos se for preciso. O tempo é, na realidade, o homem mesmo como ser-no-mundo, entendendo o homem enquanto tolhido na facticidade e já possuído pela morte, mas igualmente homem na ultrapassagem gloriosa do projeto e na exaltação do impulso. O porvir, enquanto dimensão interna da liberdade, constitui, poderíamos assim dizer, a parte divina de nossa natureza; aquela que, se viesse a preencher todo o espaço disponível, nos tornaria deuses. Se o homem compreende o mundo no interior da situação, é porque ele próprio está situado na compreensão do Ser e, por isso, constituído Dasein. Logo, existir é reconhecer este dom pelo qual estamos despertos para o Ser.




Bibliografia:

BEAUFRET, Jean. Introdução às filosofias da existência. São Paulo: Livraria duas cidades, 1976.

COTRIM, Gilberto. Fundamentos da filosofia. São Paulo: Saraiva,1997.

HEIDEGGER, Martin. Ser e tempo. Petrópolis: Vozes, 1997.

 

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fonte:

 

Filosofia Virtual

publicado por mh às 20:38
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