Quinta-feira, 26 de Julho de 2007

"Os Simpsons: O Filme": A febre amarela, vinte anos depois


25 de Julho, 19:44
Depois de duas décadas no pequeno ecrã, os Simpsons saltam para o grande naquele que é um dos filmes mais aguardados de 2007. "Os Simpsons: O Filme" (The Simpsons Movie) não revoluciona mas também não desilude, e ao longo dos seus 90 minutos proporciona uma boa interligação entre entretenimento e sátira. Talvez não seja dos melhores do ano, embora já ninguém o tire da lista dos incontornáveis.

Tudo começou em 1987, quando Matt Groening e James L. Brooks criaram curtas de animação de trinta segundos sobre uma peculiar família norte-americana, emitidas em "The Tracey Ullman Show". Três anos mais tarde, o crescente sucesso de Homer, Marge, Bart, Lisa e Maggie levou a que os Simpsons ganhassem a sua própria série televisiva, dando incício a um fenómeno que se alastrou da América para o mundo e fez não só destas cinco personagens mas dos restantes habitantes amarelos de Springfield ícones incontornáveis da cultura pop recente.

Dezoito temporadas e vinte anos depois, a série mantém o carisma e contribuiu para que surgissem múltiplas concorrentes que não escondem a sua influência, reforçando o seu papel de autêntica pedrada no charco no panorama televisivo das últimas décadas. O motivo? Ser uma proposta de animação capaz de agradar a um público infantil sendo contudo susceptível de segundas leituras que apelam a uma faixa adulta, fruto de um humor versátil, corrosivo e sempre actual.

Há muito falado mas também adiado, o filme chega finalmente ao grande ecrã e diferenciou-se logo por uma campanha promocional atípica e imaginativa. Do acordo com as lojas Seven Eleven, que as transformou em Kwik-E-Mart com produtos presentes na série; ao site oficial, onde é possível criar uma réplica simpson à imagem do utilizador; ou no desenho de Homer no sul de Inglaterra, ao lado do Gigante de Cerne Abbas; o marketing foi certeiro no aguçar dos apetites para a primeira longa-metragem centrada na popular família. Apetites e também expectativas, que não eram poucas dadas as duas décadas de espera que os muitos fãs tiveram que suportar para verem os habitantes de Springfield no cinema.

"Os Simpsons: O Filme" não está à altura da genial campanha promocional que o antecedeu, mas encontra-se igualmente longe de ser um trabalho que desiluda, já que contém os atributos que fizeram da série uma referência: personagens fortes e gags que conseguem um equilíbrio perfeito entre ligeireza e contundência, disparando críticas à conjuntura política, social e ambiental recente.
A escrita preserva a inteligência e acessibilidade habituais, e a equipa conseguiu fazer com que estes 90 minutos fossem um pouco mais do que um mero episódio longo, inserindo na narrativa alguns pormenores curiosos relacionados com essa diferença de formatos. Estes, assim como a qualidade reforçada da animação digital, permitem que o filme resulte numa experiência singular q.b., já que no argumento não se encontram grandes elementos que justificassem uma longa-metragem.
O ponto de partida é a fuga dos Simpsons de Springfield, após a cidade ter sido envolta por uma indestrutível redoma gigante e condenada à destruição devido a um incidente gerado por Homer, que aumentou os seus níveis de poluição. Embora mudem de residência para o Alaska, os cinco elementos da família regressam a casa na tentativa de salvar a população, tarefa que se avizinha árdua quando os adversários são os serviços secretos dos EUA.

O que se conta em "Os Simpsons: O Filme" não é nada que não coubesse nos trinta minutos semanais, mas a película tem fôlego suficiente para entreter e suscitar alguma reflexão enquanto dura, ganhando ainda pela densidade emocional na abordagem à importância da família. O argumento não é especialmente surpreendente, embora também nem precise, pois a sua desenvoltura e eficácia fornecem o ritmo adequado para que se embarque sem medos nesta aventura, onde vários sorrisos vão sendo garantidos à medida que os protagonistas tentam salvar a sua cidade-natal.
Talvez fosse desnecessário um enfoque tão forte em Homer, já que a personagem acaba por eclipsar as restantes, assumindo-se como o centro dos acontecimentos e deixando-as entregues a enredos secundários e pouco desenvolvidos (como o do namoro de Lisa com o ambientalista Colin). Mesmo assim, todos os elementos da família Simpson têm espaço para brilhar, o que já não ocorre tanto com os restantes habitantes de Springfield, a que não é alheio o facto de grande parte da acção decorrer fora da cidade - de qualquer forma, seria difícil dar algum tempo de antena a todos eles, dada a vasta galeria criada na série.

Não acrescentando muito ao universo da criação de Matt Groening - tirando, claro, presença do porco de Homer e respectivos alter-egos -, "Os Simpsons: O Filme" é contudo uma comédia de animação conseguida e uma das mais recomendáveis do ano, conduzida com solidez por David Silverman, que se estreia na realização de longas-metragens a solo depois da colaboração em "Monstros e Companhia". E é também uma daquelas a ver mesmo do princípio ao fim, uma vez que entre as pequenas surpresas incluídas durante os créditos consta a primeira palavra dita por Maggie (e esta, de facto, só faria sentido num filme).
Uma boa forma de celebrar os vinte anos da família amarela mais famosa do mundo, que a julgar pelo que aqui se apresenta tem vitalidade para durar muitos outros.

Ficha do filme

Gonçalo Sá @

publicado por mh às 10:39
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